
Assumo: Sou um vivo com medo da morte.
Eis o porquê: Serei um morto sem medo da vida.
Ou não!
Mas a eventualidade desse triste fato me assusta.
Estava andando por aí quando pensei sobre.
Eu estava andando,
estava movendo as pernas,
estava vivo.
E a vida, como sempre é (nesse aspecto),
foi grata comigo.
Deu-me a oportunidade de pensar,
inclusive sobre a morte.
Por que a última não me dá?
Tô muito acostumado a pensar sobre fatos pretéritos.
Defendo isso porque, naturalmente e/ou culturalmente,
o homem é sociável!
Necessitamos contar, discutir, dividir, socializar fatos.
Nem que seja uma "sociabilização individual".
Essa necessidade existe,
e requer a sequencialidade.
Temos a mente funcionando a todo momento,
pensamentos entrando e saindo a todo tempo.
Não precisamos parar para pensar,
mas muitas vezes paramos.
Parar para pensar.
Que prazer!
Parar de pensar?
Nem tanto...
Um dos motivos de temer a morte
é a possibilidade de,
em sua superveniência,
o homem não poder raciocinar sobre ela.
Pra mim é um dos que mais me assustam!
Dar um tapa e pedir desculpas.
Ter a noite de amor mais fantástica do mundo e ser bobo pro telefone.
Cair e gritar "Puta merda!".
Chorar e depois rir.
Dar "Tchau" e depois dizer "Olá".
Imagina se pra todos esses exemplos,
dos quais todos nós conhecemos bem,
Não tivesse o "e" e um grande raio nos acertasse em cheio,
interrompendo-nos de pensar e de expressar.
Enquanto estamos vivos,
criamos vários escapes pra sarar essa preocupação.
É Jesus que vai descer,
é o Diabo que vai subir,
é Alá que vem de lá.
Criamos "lás":
lugares pósteres a nossa vida,
afirmando que a morte não é o fim,
mas uma transcendência da alma.
Essas justificativas
capazes de definir ordenamentos jurídicos de sociedades, costumes
e cotidianos,
só revelam a comunhão do medo!
Todos nós temos esse medo!
Aqui vai um aviso:
continue a criar "mentiras" ou "possibilidades" (como já disse Platão).
A vida será mais confortável.
Não é em vão!
Precisamos de esperança.
Sabemos que "a esperança é a última que morre".
Esperamos fugindo do desespero.
Esperamos o além.
Portanto criamos Deus, para quem damos "Amém".
O fato é que,
assim como nós,
ela morrerá.
E, quando esse fato for consumado,
não teremos mais mitos,
não teremos mais condição de ter,
porque ter requer viver.
Não saberemos o que é medo,
porque saber requer viver.
E tudo o que eu disse não passará de um devaneio.
Odeio ter que explicar poesias,
então incorporarei essa explicação na própria poesia,
deixando de ser uma explicação.
Devaneio, segundo Aurélio,
é "um capricho da imaginação; sonho, fantasia."
Que sejamos caprichosos e mentirosos.
Afinal, viver é uma efêmera folia!
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