sábado, 17 de outubro de 2009

Um Engenhoso e Falido Oculista


É tentar tocar teclas como se fossem cordas,
pois aquelas são duras, pesadas e lisas;
e estas ásperas, flexíveis e leves.

Como contemplar a infância com olhos apressados,
Porque nesse estágio,
tudo se eterniza e tudo é suscetível ao perpétuo.

É ser audacioso ao passo de ver o fim estando no início,
criando expectativas que não correspondem ao meio.
É ser um choroso arrependido de soluços quase contínuos.
Afinal, é preciso lamentar mais. Necessário é respirar!
Para viver?
Antes de tudo, para lamentar!

Fragmentam o amor,
Forçando uma ilusória possibilidade de fração de tal bem.
Como um bolo de aniversário de uma criança enganada por seus pais,
os quais afirmam que o desejo é dela,
quando a mesma ainda,
nem sequer,
consegue impulsionar os lábios para frente,
apertá-los uns contra os outros,
de modo a soprar um vento cheio de esperanças, aspirações e possibilidades.
Sopro alienado!
Isso: é como assoprar desejos de outrem pelos lábios seus.

E o amor,
que é um só,
é, então, distribuído.
Fatias que saíram do mesmo bolo,
preparado pela mão do mesmo Deus,
estranhamente são estigmatizadas e segregadas,
umas doces e deliciosas,
outras intragáveis.
Nem amor é mais.
É bobo e ingênuo dizer que o amor é genuíno,
Ele é misturado, melado, sujo, colorido e único.
A mistura é perfeita.

É usar moeda onde a sua “coroa” é pequena
-ou grande. Há tantas divergências a respeito-
demais para a “cara” do povo infiltrado.
Já vimos isso antes.
Vemos isso aos montes.

Por favor, não legende objetos fora de contexto.
Melhor,
não confunda contextos.
Nunca faça da vida um dicionário pétreo.
O ser humano é humano porque é cheio de façanhas,
E a todo dia inventa, recria.
É assim que sabemos brincar!
Não sejamos funcionários cansados por etiquetar tudo o que surge.
Cansarás de etiquetar.
São muitas remessas.
São muitas vielas.

Que prismáticos sejam nossos olhos.
Que moldáveis sejam nossos pés.
Que flexíveis sejam nossas mãos.
Que navegantes sejam nossas mentes.
Que curiosos sejamos nós.

Sejamos provadores das versões,
inimigas da verdade,
que nem existe.
Não nos preocupemos,
pois o mundo é um engenhoso oculista.
Preocupemo-nos,
pois somos viciosos provadores.
Os olhos foram feitos para serem feridos, mexidos e abusados.
Não há necessidade de trocá-los,
Pois eles permitem a alteridade,
e ela dispensa pontos conjugados,
dispensa casos eternamente julgados.
A alteridade é o matrimônio do ser e do estar.
Eu sou estando,
Assim como estou sendo.
Nunca divorcie essa união!
Eu rezo para que o mundo use a essência neutra
no intervalo de dois perfumes,
sabendo que a eleição decorrente desta ação não é universal.
Eu rezo para que o homem reconheça
que a luz caminha diferente em diferentes meios,
que ela refrata diferente através de olhos alheios.
Eu rezo para que respeitemos os diferentes jeitos,
os diferentes trajetos.
E usar a lente que o mundo vende
não é ver o mesmo que outrem,
mas saber que a luz,
nos olhos de um lindo ser,
é peculiar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Um metódico ruminante.


Ultimamente,
estou querendo vomitar ideias,
engolir ideias de volta.
Triturá-las,
descê-las,
digerí-las,
absorvê-las,
filtrá-las,
torná-las parte essencial e parte dispensável.
Armazenar ideias,
excretar ideias.
Torná-las nutrientes,
torná-las fezes.
Circulá-las,
suá-las,
sintetizá-las,
misturá-las e sujá-las.

Eu quero simplesmente que as ideias conheçam meu sistema,
do qual elas advêm,
do qual elas nunca perscrutaram.
Do qual foram expulsas e nunca regressaram até então.
Eu quero que elas processem a formação.
Eu quero que elas sejam sentidas.
Eu quero que elas sejam sentidas e pensadas.
Eu quero sinápse pura.
Eu quero reações químicas fortes.
Eu quero estímulos apaixonantes.
Eu quero a dor viva.
Eu quero que as ideias tenham dor.

A partir de agora,
desejo ruminar idéias!
Sim: Ideias nascem de uma abrupta e sentimental expulsão.
Ideias crescem em uma árdua e prazerosa metabolização.
Eu quero apreciá-la como um produto químico-físico-biológico-psicológico.
Eu quero produzir ideias.
Eu quero ideias como pedaços de mim.
Eu quero ideias assim como eu quero pêlos,
assim como eu quero excreções,
assim como eu quero contrações,
assim como eu quero emoções.

A partir de hoje,
ideias serão processadas,
salvo exceção: quando minha estrutura estiver carregada de tantos processos pendentes,
vomitarei inúmeras ideias,
as quais serão verdadeiras crianças:
repletas de inocência e nudez.
Repletas de tolice,
sentimentalidade,
impulsividade e veracidade.
Cheias de imaturidade
e de uma pulsante tentadora potencialidade.
Consubstanciadas de defeituosas qualidades.