sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Eis o cordeiro meu

"Escrever é ferir alma";
ouvi dizerem.
Arrancar abruptamente sentimentos presos,
libertando-os ou os transferindo para outras celas,
mais modestas ou não.
Riscar é ferir.
E, a cada vez,
a alma chora grafites fundidos.
Borra sobre um branco imprevisível.
Eis o cordeiro do poeta,
que encontra seu perdão ao vislumbrar divinas palavras.
Que fumassem à caminho de todos os céus.
Sim!
Já ouvi relações de Deus sendo o verbo.
"Jesus: o verbo encarnado."
Para a surpresa dos religiosos,
meu Deus é minhas palavras.
Divinas por serem pedaços da alma,
perfeitas em cada uma das imperfeições.
Seja um "t" inclinado,
um "m" bem elaborado.
Meu Deus é minhas palavras,
expressadas por meio do leve toque de uma pena nas lágrimas da alma.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"À volonté"


Aulas de etiqueta?
Nunca vi a chuva pedir licença.
Nunca vi tornados pedirem desculpas.
Muito menos tempestades arrependidas.
Tampouco terras em pleno outono suplicarem "por favor".
A água precipitada não fica chateada com uma janela fechada durante seu curso.
É tudo invenção do Homem,
que entrelaça fios como uma criança em seu primeiro laço.
Formalismo formado.
O ponto é:
impossível o homem perder totalmente as amarras sócio-culturais,
e nem queria que fosse assim.
Mas,
puta merda,
para que tanto sistema antisom sobre as palavras?
Deixe a boca chover.
Deixe os verbos se tornarem tornados.
Deixe os raios da mente relampejarem "à volonté".
Seja humanamente natural.