sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Abstenho-me de julgar os desejos. São todos genuínos ao deixarmos a moral alheia. Caminhando e refletindo, percebo que até a superfície pode ser profunda e, portanto, aprofundada. O que costumam designar fútil pode não sê-lo: sapatos, carros, ouros e afins mudam o íntimo de um ser humano e sua percepção, comportamento com o resto do mundo. Os objetos chegam a ser sujeitos de tão vivos e influentes que são. Despertam desejos e são motivos de aflição, amor, rancor. No entanto, não procuro mergulhar nestas águas. Neste instante, entra um ser humano cheio de juízo de valores, que escolheu o que lhe aflige o que lhe faz mal ou bem.

Meu corpo é meu liame. Por que o vento que me escapa da boca não sou eu ou parte de mim? Porque me escapa. Assim como a perna que se escapa, escapa-se de mim: DE MIM! Passa a ser a perna sem pronome que lhe atribua posse. Não me atrevo afirmar que a perna deixou de viver ou ser um ser. Poderia subsistir sendo. O que é ser? É ver? As pernas e os cegos não têm olhos. É sentir com a pele? A perna a tem, porém a ciência afirma não haver mais vida ou registro dela capaz de sentir, mediante várias e reiteradas experiências, a “poderosa” indução. Mas quem é envolvido pela pele que envolve a perna para afirmar com tanta arrogância? Coitada da perna que, não servindo nem para uma transfusão, foi chamada de “algo à parte e morto” e relegada ao demérito. Tudo porque ela não pode mais jogar uma pelada com o filho do vizinho, tudo porque não interage da forma que a maioria lhe espera mover-se. As plantas também já tiveram seu funesto demérito.

Minha pele me define como uno: eu me sinto internamente e sei que interajo comigo mesmo e tenho como produto diversos substratos valiosos, dentre os quais, meus valores, meus desejos. Estes permitidos por meio de minha permeabilidade. O mundo parte de mim, apesar de ser extrínseco. Uma contradição manifesta? Não é uma questão retórica. É uma dúvida cruel!

Eu quero que meu mundo encontre diversos, e que a junção deles, formando um sistema, resulte em um sistema a mim saudável. Eu sei que estes valores são relativos, mas também sei o que me é absoluto. Perseguirei isto sem a ingenuidade da aprovação absoluta, que não existe. Na verdade, desejo enxergar os processos e mentalizá-los, refletí-los. O máximo que posso me afastar de mim é pensando (o valor da reflexão em contraponto aos sapatos de luxo), pois em mim estou ininterruptamente, o que, por vezes, cansa-me. Nunca poderia estar no lugar do outro, senão pensando. O altruísmo é real porque o pensamento é concreto. O altruísmo, no entanto, é uma farsa tanto quanto o sonho de um sonho: em que pese eu achar estar vendo pelo outro, eu imagino estar vendo pelo outro e acabo analisando as situações pelo o que eu acho que lhe anseia, aflige. O que desemboca, novamente, em mim. Uns diriam que, precipuamente, o altruísmo seria algo virtual. Abstração é vida e discordo de eventual virtualidade. Quando me canso de mim, viajo e me sacio (por mais que não esteja longe de mim, a imaginação disto sacia meus desejos de estar distante). Consigo até me ver como estranho, ver-me de frente. Não pela falsidade e imperfeições de um espelho, mas pela polidez de minhas sinapses.

Resta-nos o suficiente. Até o mais fabuloso filosofo é resignado de sua condição, pois tudo o que faz, mesmo que dito como transcendente, é o que lhe cabe. Pensar no que existe além da Terra é o que lhe cabe. Revela sua resignação em pensar sobre. Aviões não são projetos advindos de transcendência da capacidade humana. A questão é que não conhecemos nossos limites e acreditamos ultrapassá-los. Contudo, o que “ultrapassamos” está dentro de nossas lindes e os limites o são porque são fronteiras instransponíveis. Nós nos raspamos nos arames de nossas virtudes a todo o momento e retornamos a percorrer dentro de um círculo. Quando descobrimos um espaço, ínsito ao circulo, nunca antes descoberto, proclamamos a quebra de limites proporcionada por um espírito virtuoso. Não há nada de funesto em ter limites. A morte é um deles! E que lindo é morrer uma forma de vida... Que triste é contar os dias que restam. Até ela, direciono-me a conhecer algumas possibilidades eleitas como as melhores.

Procuro a resposta do porquê eu não me contentar com os resultados e recorrer ao processos histórico das coisas. Eu não sei. Não me faz bem. Mas por quê? Eu não sei. Vou seguindo meus desejos. Quem sabe ache um argumento plausível. Por ora, vou seguindo neste sentido, pois é o que me distrai da contagem regressiva que é morrer esta forma de vida. Sou curioso quanto à forma que a perna achou ante o decurso temporal. Que curiosidade deliciosa...

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